As pessoas me desejam o mal. Não todas, algumas, com exceção dos meus gatos. Quando eu faço uma piada que envolva câncer, tetraplegia, elas me praguejam: “cuidado, heim, vai que amanhã você fica imóvel em uma cama.” Todas as vezes que disse que queria morrer de câncer no cu ou que o maneiro de ser tetraplégico é ter uma desculpa pra pedir um copo d’água na cama, alguém me desejou: “se não for você, será seu filho!” Eu já imagino nascendo meu filho, eu o pegando no colo, a criança escorregando feito  um sabonete, caindo no chão e ficando eternamente na cama. Ué, desejo de vocês. Curioso é que quando fiz inúmeras piadas de rico, ninguém falou: “vai que amanhã você fica rico e, ó, se não for você pode ser seu filho!”

Sendo assim, não se constranjam, se eu tiver um filho tetraplégico, canceroso, down, não ajam como idiotas felizes falando pelas minhas costas que foi uma justiça do destino. Temam: “agora ele tem um álibi para agravar mais suas piadas.” Poderei dizer: “tetraplégico tem uma vida muito movimentada.” E ao final: “não se choquem, eu tenho um filho tetraplégico, então tenho autorização. Serei como um negro que tem autorização para fazer piada de negro no palco.

A mesma coisa penso do Roberto, meu amigo e companheiro de blog, que tem paixão por viados e homossexuais de forma geral. Só que o caso dele é mais realizável, pois há mais homossexuais no mundo do que tetraplégicos. E assim as pessoas poderão dizer: “viu, ficou brincando com essa coisa de viado, o filho nasceu viado!” Caso queiramos diminuir os constrangimentos e trollar os malfazejos de plantão, já combinamos: se ele tiver um filho viado e eu um filho aleijão, vamos trocar as porra das criança.  E assim não poderão dizer nada, pois afinal, ele só fazia piadas com gay e era eu que fazia com tetraplégicos. Fudemos o destino.

 

Sobre o autor

Cacofonias

Carioca do século passado. Pós-doutor em nada. Defensor de uma reforma ortográfica em que escrever errado seje certo. Usuário de piadas pesadas. Roteirista de humor. Pai do Borges, o gato. Host do Minuto de Silêncio.

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