Em algum momento que não sei qual foi, piada passou a ter dono. É estranho isso. Arriscaria dizer que veio com a internet, essa coisa doida que registra tudo que se escreve.  Antigamente (sem saudosismo algum) meu pai me contava uma piada que ouvira no rádio, eu contava essa piada na escola e meus colegas contavam nas suas casas ou para seus outros colegas e o dono da piada era quem contava na hora.

Hoje as piadas têm dono, copiar piadas tem nome: kibe. Pobre Kibe que mesmo rico entrou pra história como o símbolo do roubo de piadas, um Rousseau das piadas privadas ou não exatamente isto, vide que ao invés de coletivizá-las ele mete uma marca d’água em cima e diz: “é minha” e se tira a piada de uma cerca para colocá-la em outra. Muito estranho tudo isso.

Eu sou kibemaníaco, kibefóbico, sou doente em algo nesse sentido e não sei o nome exato. Tenho muito medo de cometer kibagem sem querer. Sim, existe uma patrulha vigilante de kibes que te indicam quando você comete um. Você não precisa ser famoso. Imagina que você está no Twitter e de repente tem uma sacadinha do tipo:  “spoiler da minha vida: eu morro no final.” Se por alguma razão alguém, em algum lugar do mundo, escreveu isso nada tão genial antes de mim, sai alguém sei lá de onde para dizer: kibe!! E sei de gente que já evoca a autoria da piada do pavê, a autoria da piada da galinha que atravessou a rua, a piada do Mario e por aí vai… estão privatizando as piadas e, por medo, tenho evitado fazer piadas óbvias. Suponhamos que eu vá fazer a piada do spoiler que mencionei acima, para particularizá-la e tentar fugir do kibe, prefiro dizer: “spoiler da minha vida, já bem vivida, por volta dos 85 anos de idade: eu morro, talvez de velhice mesmo, mas pode ser de acidente, o importante é que morro.” Note que assim, provavelmente, ninguém terá feito, pois há muitos elementos particulares. Tá certo que não tem graça quase nenhuma, mas é minha uma piada de minha autoria de fato e pra mãe não há filho feio.