Morreu o humorista Roberto Gomes Bolaños, o Chespirito, conhecido no Brasil por Chaves e Chapolin. Envolvido por repercussão de sua morte, mensagens de despedida, lágrimas de fãs e rememorações de vídeos e frases, cabe trazer algumas especulações e tópicos para pensar a identidade da obra de Bolaños aquém do riso.

1 – Camadas textuais:

Um dos grandes motivos do sucesso de Chespirito foi a construção de níveis de leitura que podem ser interpretados e gostados de diferentes formas por diferentes públicos. O autor era tão reconhecido por sua habilidade textual que seu apelido, Chespirito, significa Pequeno Shakespeare. Pode-se reconhecer o trabalho de Bolaños como de grande engenho literário, embora desvalorizado como literatura por se tratar de humor (processo normal na cultura ocidental, vide a predominância das tragédias de Sófocles às comédias de Aristófanes) e, além disso, por estar na televisão, meio geralmente repudiado pelos ambientes acadêmicos. É possível ler a obra de Roberto Bolaños (o Mexicano, com s no final, e não o Chileno), de perspectivas múltiplas: o ponto de vista da criança, do pobre, do cristão, do pastelão. É este engenho (e não um mero acaso), resultante de construção textual, criação de personagens, roteirização, que faz com que Chaves e Chapolin possam ser vistos, compreendidos e ridos por diferentes idades, classes sociais e nacionalidades.

2 – O cristianismo:

Um motivo certo de sucesso, pouco comentado, na obra de Bolaños é a perspectiva cristã franciscana, muito bem aceita nos países latino-americanos, inclusive no Brasil. Este recorte cultural foi um facilitador para sua fácil assimilação e identificação por parte do espectador. Cabe lembrar que Bolaños era católico e que seu seriado mais famoso está sempre envolto por temáticas e frases como “compartilhar o pão”, “as pessoas boas devem amar seus inimigos”, além de o protagonista ser um menino pobre que vive numa Vila e mora por caridade na casa 8.

3 – Latinoamericanismo e língua espanhola:

Nunca saberemos a resposta, mas como exercício, vale perguntar: “Será que se Chaves fosse originalmente em português teria atingido a mesma repercussão?” O espanhol, língua original da obra, é uma das mais faladas no mundo e une toda a América Latina. Claro que não se trata apenas disso, senão o seriado não teria feito sucesso no Brasil (que conta com uma dublagem digna de todos os aplausos). Há outros fatores, mas não se pode desprezar este facilitador cultural e, inclusive, por conta dele, fazer outra pergunta sem resposta: “Fosse em inglês, Chaves não teria alcançado um patamar igual ou maior que o Carlitos de Chaplin?”

4 – As generalidades:

Se as particularidades e pontos de vistas distintos permitem atingir diversos públicos, cabe ressaltar também as generalidades: Vila de subúrbio, menino pobre, pai desempregado, mulher viúva, vizinha que parece bruxa, garotinho mimado, o gordinho rico, o cobrador implacável, o professor tradicional, o casal que namora e nunca se casa. Personagens facilmente encontrados em qualquer lugar do mundo que foram enriquecidos pelas intepretações geniais dos atores que estavam ali para atuar com uma verdade tão absurda que algumas vezes usavam seus próprios nomes: Florinda é Florinda, Ramon é Ramon. Já Chaves, em espanhol Chavo (significa garoto e não é um nome próprio), nada mais do que um personagem que poderia ser qualquer garoto abandonado do mundo, uma particularidade que o faz ainda mais genérico.

5 – Ferramentas de humor:

A variação de ferramentas de humor presentes nos textos de Chespirito é invejável. Repetições, quebras de expectativas, exageros, associações e por aí vai. Em um mesmo episódio é possível rir de um tropeção que ocorre por inúmeras vezes e por uma crítica política que diz que numa folha em branco está desenhado o café-da-manhã do menino pobre e órfão. A estratégia de “inferioridade aparente” faz com que o personagem mais forte, protagonista, El Chavo, seja também, aparentemente, o mais fraco. A ele não cabe só o exercício do punch line das piadas, mas também servir de escada e criar setups para que o humor possa ocorrer. Muitas coincidências e lições aprendidas com Chaplin levam Chaves a ser o desenvolvimento meritoso do Carlitos para o formato com áudio, melhor do que foi feito pelo próprio Chaplin que teve seus mais geniais momentos no silêncio.

Postos esses cinco tópicos, cabe pensar a obra de Bolaños, não para repeti-la, o que já foi tentado por alguns programas e se tornou ridículo. Cabe, aos humoristas e comediantes, estudá-la para continuar a trilhar o caminho do humor, assim como ele fez com Carlitos e O Gordo e o Magro, referências que aparecem diretamente na sua obra. Se outras obras de humor surgirão, que terão o mesmo peso e importância, só o tempo dirá. Enquanto isto, continuemos a ver as reprises que é o que sempre fizemos muito bem. Afinal, para nós espectadores, Chespirito nunca morrerá.