Olá, amados leitores e leitoras. Um ótimo dia se você lê de dia.  Uma ótima noite se você lê de noite.  Eu sou Jack Sulivan, o palestrante tetraplégico, e trago uma alegria imensa dentro de mim que quero compartilhar com todos vocês.
Sempre me perguntam: Sulivan, você não se importa de ser chamado de palestrante tetraplégico?  E eu sempre respondo: me incomodo muito mais pelo “palestrante” do que pelo “tetraplégico”!  Podem me chamar como queiram: tetraplégico, aleijado, bela adormecida,  vegetal! Diga-se de passagem, eu amo vegetais.  O que importa não é o que sai da sua boca,  mas o que eu sou de verdade no meu interior.  Se vocês estão aí pensando que estou parado, só porque estou aqui numa cama, digitando com a boca,  saibam que por dentro eu danço nos musicais da Broadway.
Não é que eu tenha sido sempre feliz.  Não! Nem sempre foi assim. Não ache que eu sou superior ou um arrogante.  Já tive meus momentos de tristeza. Logo depois que sofri o acidente, fiquei um fim de semana imenso na mais profunda depressão.  Antes de tudo, eu não era uma pessoa feliz e, logo após o acidente, parecia que tudo ia piorar na minha vida.  Porém, na primeira segunda-feira após o episódio que transformou minha existência, mudei o canal da TV e vi o final de um filme que até hoje não descobri qual é, em que Jesus humilhado, preso à cruz, no seu momento mais difícil, cantava junto com outros crucificados: “olhe sempre o lado bom da vida! ” São estes versos que trago em minha mente e em meu coração até hoje.
As pessoas gostam sempre de me perguntar: “mas há lado bom em ser tetraplégico?” E eu encho a minha boca de orgulho para dizer: “mas é claro!!!”  E nesse momento de minhas palestras uso a varetinha que trago na boca para clicar na setinha “avançar” do teclado e exibir um slide com gifs que ilustram as dez maiores vantagens em ser tetraplégico. Ah, abro parênteses.  Certa vez procurei um designer para me ajudar e ele falou: Sulivan não é correto usar gifs animados em uma apresentação”.  E eu falei: “se você não tivesse seus movimentos, meu caro rapaz, não negaria movimento a um gif. Seja animado como ele.  Xô, pessimismo!” – Repita comigo mentalmente, leitores: Xô pessimismo!!! Mais forte e mais alto: Xô pessimismooo!!! Fecho parênteses.
Abaixo os itens da minha palestra: as dez maiores vantagens em ser tetraplégico:

1 – Nunca fico em pé esperando numa fila.
2 – Quando meus amigos me chamam pra ir a algum programa que não quero, simplesmente digo: acho que vai ser meio difícil ir hoje e eles são  absurdamente compreensíveis.
3 – Nunca dou topada em quinas.
4 – Nunca preciso dançar Macarena em casamentos e outras festas familiares.
5 – Quando conheço uma nova pessoa, nunca fico em dúvida se devo dar beijinhos ou um aperto de mão.
6 – Posso trabalhar deitado.
7 – Ninguém me enche o saco pra eu frequentar uma academia.
8 – Nunca preciso voltar a pé pra casa.
9 – Não me canso subindo escadas.
10 – Minhas namoradas nunca se queixaram de não receber café na cama.

Talvez você esteja pensando: “Nossa, como é bom ser tetraplégico!” Tudo isto é uma questão de ponto de vista e estado mental. Eu sou mentalmente preparado para este desafio da vida, mas, diariamente, tenho que enfrentar também minhas frustrações e desvantagens. Nunca correrei uma maratona, por exemplo. Logo as maratonas que sempre me pareceram tão divertidas! Isto será um problema com o qual terei que conviver. Mas não me abato.

Diante de cada obstáculo, diante de cada desafio, diante de cada problema, sempre podemos optar por ver o lado ruim deles ou o lado bom. Acredite, se temos um estado mental negativo, tudo pode ser negativo. Se temos um estado mental positivo, tudo pode ser positivo. Por isto, olhem sempre para o lado bom da vida e sigam meu exemplo: estou saltitando de alegria neste momento, pois o que importa é o que está aqui dentro e não do lado de fora. Uma salva de palmas mental para todos vocês! Muitíssimo obrigado!

Ass.: Jack Sulivan – o palestrante tetraplégico

Sobre o autor

Cacofonias

Carioca do século passado. Pós-doutor em nada. Defensor de uma reforma ortográfica em que escrever errado seje certo. Usuário de piadas pesadas. Roteirista de humor. Pai do Borges, o gato. Host do Minuto de Silêncio.

Posts relacionados