Pense como um profissional do humor.  Sim, aqueles sujeitos que ganham pra fazer piadas, seja num palco, seja escrevendo, seja no aniversário da sua tia. Assim como em qualquer profissão,  seja consciente ou inconscientemente, eles desenvolvem um método: “ah, quando faço um exagero a platéia ri”; “Ah, quando escrevo repetições o leitor se diverte.”  Pois então não há como admitir que um  profissional de humor fique por aí rindo de qualquer pamonhice. Um  profissional de humor que ri é, com toda certeza, como um médico com nojo de sangue; como um alpinista com medo de altura,  como uma prostituta que goza. Porém,  diferente dos três anteriores, o humorista que ri ainda há em grandes números.
Esta espécie pouco  profissional acha que pode usar os próprios produtos para brincar.  Imagine se uma menina chinesa que fabrica bonecas Barbie fica brincando com sua criação.  Seria de uma ética baixíssima. O mesmo serve para o humorista.  Não rir de piadas é um imperativo.
Dito isto, e questionado o profissional, cabe questionar o produto. Por que todas as piadas, de Aristófanes a Fábio Porchat, acabam da mesma forma?  Sim. Da mesma forma: com risos.  Por que não se pode acabar uma piada com vaias, com gritinhos, com estalos de língua ou, o meu favorito, com um minuto de silêncio.  Aí sim estaríamos  revolucionando o humor, pois mexeríamos no seu fundamento.  Isto seria a novidade,  seria a revolução.
Confesso que já estou enfadado dos humoristas engraçados, das piadas com risinhos. Ultimamente tenho ido a shows de standup dos coveiros e médicos quimioterápicos. Não possuem graça alguma, são tão bons.  Deixam aquele minuto de silêncio que nos tem sido tão escasso  ultimamente.

Sobre o autor

Cacofonias

Carioca do século passado. Pós-doutor em nada. Defensor de uma reforma ortográfica em que escrever errado seje certo. Usuário de piadas pesadas. Roteirista de humor. Pai do Borges, o gato. Host do Minuto de Silêncio.

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